Do Coração do Bispo

FORMA, DEFORMA E REFORMA

Celebrando os 500 anos da Reforma Protestante

Celebrando os 500 anos da Reforma Protestante

Bispo Anderson Caleb Soares de Almeida

No ano do aniversário de 500 anos da Reforma protestante, que se celebra em 31 de outubro, dia em que o monge agostiniano alemão Martinho Lutero em 1517 afixou suas 95 teses nas portas da Catedral do Castelo de Wittemberg. Wittemberg era cidade alemã universitária, onde Lutero lecionou sobre a Bíblia e onde descobriu que o Justo viveria pela fé ao ler Romanos. Respirando esse clima fiquei pensando no “porque” da Reforma e em suas implicações. Após refletir gostaria de oferecer algumas considerações a vocês sobre a Reforma Protestante.

Pra pensar sobre reforma escolhi então três expressões que nos ajudarão a compreender e recompreender este movimento que vive ainda hoje e que não pode ser esquecido.

Os termos são: Forma, Deforma e Reforma.

Afinal para se entender a “Reforma” devemos pensar na “Deforma” que a antecedeu. Entretanto para assimilar e discernir essa Deforma, precisa-se entender a Forma, a antiga e original forma da Igreja. trata-se de uma reflexão eclesiológica e teologica extremamente ampla. Nesse espaço é impossível refletir os diversos olhares e possibilidades da Reforma Protestante que influi na Teologia, na filosofia, na política , nas ciências, nas artes enfim.

A FORMA

Pra gente entender a Deforma que exigiu uma Reforma, precisamos nos lembrar da Forma. A Forma da Igreja, a original Forma temos na Igreja Primitiva, na Igreja neotestamentária fundada nos ensinos de Jesus e na doutrina dos apóstolos, ou seja, fincada na Palavra. A forma é ser uma igreja bíblica. Afinal a Igreja nasce e é gerada pela Bíblia, pela Palavra e não o contrário. Até o ano ano 313, ainda nos tempos dos pais da Igreja, mesmo lutando contra algumas heresias, a Igreja tinha Forma, a Forma cristã e apostólica dos tempos do Novo Testamento. Nenhuma das invenções da Igreja Romana ainda tinham contaminado a Igreja.

A DEFORMA

A Igreja e a sã Doutrina vão ficando sem forma e vazia a partir de 313 quando o Imperador Constantino tenta cristianizar o império romano tornando o cristianismo a religião do império. Esse ato político, esse “falso triunfo” do cristianismo sabotou a Igreja implodindo-a processualmente, passo a passo. Bispos e líderes religiosos sem conversão genuína começam a liderar a Igreja e levá-la a uma crise que se agravaria no tempo. A Igreja vai se deformando, o cristianismo se deforma e se desvia totalmente da Palavra e da centralidade de Cristo. Algumas doutrinas estranhas as Escrituras invadem e desviam a Igreja, doutrinas como:

– Reza pelos mortos em 310
– Uso de velas em 320
– Culto aos santos em 375
– Culto à virgem Maria em 431
– Doutrina do purgatório em 503
– Obrigação de beijar os pés do Papa em 606
– Adoração de Imagens e Relíquias em 783
– Instituição da Santa Inquisição em 1184
– Proibição da leitura da Bíblia em 1230
– A Confissão de pecados auricular, em 1215
E muitas outras doutrinas e ensinos totalmente estranhos à Bíblia.

Na tese de número 32, das 95 teses, indignado com a heresia da venda de indulgências afirmou Lutero:

“Aqueles que imaginam estar seguros de sua salvação pelas cartas de indulgências, serão condenados com os que assim os ensinam”.

Lutero denuncia assim, essa clara e explícita “deforma” daquilo que se chamava Igreja.

A REFORMA

A Igreja tornou-se assim totalmente desfigurada e absolutamente deformada. Entretanto muitas vozes foram se erguendo na história, muito antes de Lutero, como por exemplo John Wycliffe, John Huss, Jerônimo Savonarola entre outros. O Espírito Santo sempre soprou ventos de reforma sobre a Igreja desviada. E ainda sopra. Todavia 31 de outubro de 1517 marca um novo tempo de avanço e de solidificação do grito reformador. O grito de Lutero contra a venda de indulgências, a venda do perdão de Deus, contra a salvação pelas obras, contra o desprezo pela Bíblia, ressoou a partir das portas da Catedral do Castelo de Wittemberg atingindo com força as portas do inferno. Estudando as principais doutrinas resgatadas pelos reformadores, e em especial por Lutero, chegou-se à conclusão que a teologia da Reforma se resumia em cinco pilares, ou Cinco Solas essenciais. Solas? Explicando “sola” é uma palavra latina que significa “somente”. Os quais são:

Sola Scriptura
Sola fide,
Sola Garcia
Solo Cristus
Soli Deo Glória,

JOHN WESLEY, O METODISMO E A REFORMA

Em rápidas Palavras Wesley abraçou os cinco solas da Reforma. Quando Albert Altler discerniu o Quadrilátero Wesleyano percebeu que o Sola Scriptura estava acima da razão da tradição e da experiência. Wesley era um “homo unius libri” conforme ele mesmo afirmou, ou seja um “homem de um único livro”, A Bíblia. Em seus sermões sobre a Justificação pela fé e sobre a Graça de Deus, percebe-se seu pensamento reformado. Seu encontro com Lutero foi quando seu coração ardeu ouvindo a leitura de um prefácio de Lutero aos Romanos. A Experiência na concepção Wesleyana não se sobrepõe às Escrituras, bem como o profecia como manifestação de um dom de poder, Jamais substituiu ou competiu com a Bíblia. E mais, a expressão “Reformados” não é um monopólio de algumas denominações. A Reforma é uma herança de todos os protestantes. O metodismo abraçou a Reforma e dialoga com ela.

MAS E HOJE?

Hoje? Sola misericórdia!!
Assistimos uma nova “Deforma” sabotando a Reforma, todavia com cara de protestantismo. Precisamos urgentemente de uma nova reforma para uma nova Deforma!

OS 5 SOLAS DA IGREJA
“DEFORMADA”

Hoje muitos crentes operadores da nova “Deforma” também criaram, em minha opinião, e sendo um pouco irônico, permitam-me, os seus Cinco Solas. Vou chamá-los aqui de:

1. “Sola Grana” – O que importa é o dindim, é arrecadar! ganhar dinheiro sempre. Riqueza material o negócio é faturar, acumular bens, santidade, justiça, ética e socorro ao irmão ficam pra outra hora. A prosperidade material e financeira é sua paixão e sua pregação. O céu deles é aqui. O Deus deles é o dinheiro.

2. “Sola minha Glória” – A Igreja “deformada” ou a que vai se deformando é uma igreja personalista, que projeta homens. A Igreja deformada cultua celebridades religiosas e rouba a Glória que só é devida a Deus. Essa Igreja também gosta de atribuir Glória à instituição, à si mesma e ao seu nome. Sua doxologia se resume em dizer Ainda que veladamente: “ Glória a mim louvado seja eu”.

3. “Sola Minha Igreja” – Solo meu umbigo, solo meu arraial, sola minha denominação, sola minha tradição, sola minha liturgia etc. Este “sola” tem afastado irmãos durante séculos.

4. “Sola Novidade” – Outro “sola” comum da Igreja “deformada” é a obsessão por novidades. São fascinados por ventos de doutrina, por novos métodos, e como camaleões amam assumir as cores e a aparência do momento. De modismo em modismo e ávidos por novidades, vão vendendo a sua identidade.

5. “Sola Razão” – A razão não é um mal em si, Deus nos fez racionais. Mas a Igreja deformada cultua a razão, o racionalismo, e acredita que a razão humana é chave de todo conhecimento de Deus, desprezando a experiência e zombando do pietismo e da piedade. Abraçaram uma ortodoxia fria sem lugar para o poder de Deus e flertam com a teologia liberal.

Conclusão:
Concluo primeiro louvando e agradecendo a Deus pelo que significou e significa a Reforma Protestante pra nós. Sou grato a Deus por pertencer a uma igreja que acolheu os cinco solas da Reforma mas que dialoga com a Reforma, e continua lendo as Escrituras.

Somente As Escrituras! A Palavra final!
Somente a fé! Para a salvação!
Somente a Graça! Salvadora, Justificadora e Santificadora!
Somente Cristo! Único mediador !
Somente a Deus a Glória! E que nenhum homem ou organização tente usurpar a Glória de Deus! É só Dele!

Soli Deo Glória!

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